24 de abril de 2009

A CONSTRUÇÃO DO DISCURSO EDUCACIONAL: CURRÍCULO E PRÁTICA PEDAGÓGICA


Gimeno Sacristán nos lembra que “por vezes complicamos um pouco as coisas para entender sua óbvia simplicidade. Em outros casos, de tal forma as emaranhamos que acabamos por esquecer como eram, de fato, simples. Temos esta sensação ao falar de Currículo”. " (SACRISTÁN, Gimeno. El curriculun com a text de l’expèriencia. De la qualitat de l’ensenyament a la de l’aprenentage. In BONAL, X. ESOMB, M. A. e FERRER, F. (coord). Politica educativa i igualtaat d’oportunitatas. Barcelona: Mediterrània, 2004, 177). Por currículo, Sacristán (Op. Cit.) entende um texto tecido pelas diversas ações educativas: as intenções dos que desejam influenciar os outros para que construam em si um determinado modelo, o próprio modelo que se deseja desenvolver no outro e os planos que se elaboram a fim de que esse processo ocorra.

Como texto somente se torna realidade educativa quando convertido em ações. As ações produzidas pelo texto, no ato da leitura, os estudos textuais denominam, usualmente, discurso. Poderíamos dizer, seguindo o raciocínio de Sacristán, que a prática do currículo é a construção do próprio discurso educacional.

Todo discurso, é atravessado por um complexo jogo de interesses, valores e ideologias. O discurso, inclusive o discurso educativo, é orientado (...) não somente porque é concebido em função do propósito do locutor, mas também porque ele se desenvolve no tempo. O discurso se constrói, com efeito, em função de um fim, considera-se que vai chegar a alguma parte”. (CHAREDEAU. P. & MAINGUENEAU, D, 2004, p. 170)

Orientado a um fim, o discurso educativo, tal como assumido pela prática do currículo na escola, desvela a distância entre o que se pretende ensinar e o que de fato se aprendeu. Não é difícil concluir que a validade do discurso educativo se justifica na aprendizagem real daqueles que estão em condição de alunos (SACRISTÁN 2004).

A prática curricular, tanto as ações como os conteúdos, pode revelar-se diferente daquele fim que se assume como intenção do educador, isso traz a tona a necessidade de analisar os efeitos do currículo naqueles que se assumem como alunos, em particular no como tais efeitos vieram a se ocorrer. Essa é a investigação da própria metodologia assumida como parte do currículo. Assim, a prática de ensino é também parte do Currículo, intrinsecamente associada a ele. Não se pode discutir o que ensinar, sem discutir ao mesmo tempo o como ensinar.

Tão simples como isso!

14 de abril de 2009

O MOVIMENTO DA POESIA


O avanço da mentalidade capitalista, a partir do século XIX, e o conseqüente crescimento das cidades obrigaram a uma revisão do conceito de "Literatura", opondo o sistema econômico, motivado pelo lucro comercial, o quantitativo tomado como qualitativo, à instituição literária, considerada a partir do prestígio que os diferentes gêneros textuais provocam em seu interior. De alguma maneira, reinventou-se o conceito de Literatura pensada a partir de listas como ‘os mais vendidos’.

Isso afetou em especial à poesia no espaço. O novo público leitor que emerge no século XIX, burguês, em sua maioria localizado nas cidades, espaços em contínua expansão, não consome poemas, carregados de um lirismo que não se traduz em uma ação imediata e empolgante, antes prefere a ação presente no teatro e nos romances. Apesar disso, herdeira de um passado valioso cujo início é anterior ao da própria escrita, a poesia é ainda considerada a arte por excelência, embora sem mercado. Ela é qualidade sem quantidade. O que cria um paradoxo curioso: é símbolo de prestígio social, mas apenas uma pequena elite, nem sempre econômica, se dispõe a consumi-la. A poesia não se sujeita às leis econômicas do mercado. É a própria representação da imagem estereotipada do poeta: o erudito marginalizado pela sociedade – admirado por muitos, mas querido por poucos.

Walter Benjamin, em Charles Baudelaire: Um lírico no auge do capitalismo (1989), aborda o tema da “flânerie” contrapondo-o à ascensão do capitalismo e ao crescimento das urbes. Essa contraposição é, ao mesmo tempo, uma complementação. Nas cidades, “as relações recíprocas dos seres humanos (...) se distinguem por uma notória preponderância da atividade visual sobre a auditiva” (Op. Cit. 36). Para melhor viver o (e no) mundo ao seu redor, o poeta precisa vê-lo e, para isso, constrói uma nova identidade, torna-se “flâneur”. Caminhar não para chegar a um destino, mas para compreender essa emergente cidade que se transforma constantemente sob uma nova realidade econômica.

A cidade enreda o homem, distrai-o, banaliza o espaço na multiplicação das possibilidades. “A cidade é a realização do antigo sonho humano do labirinto. O flâneur, sem o saber, persegue essa realidade” (Id., 203). O desconhecimento de que errar pelas ruas é decifrá-las, torna o seu aprendizado uma surpresa. Mas, é esse surpreender-se, essa descoberta inesperada do real e de sim mesmo que, o flâneur, sem o saber, deseja.

O poeta, não podendo aspirar ao poder; na impossibilidade de transformar o outro em mercadoria, aspira ao prazer. O passar do tempo no flanar pela cidade não visa ao ter, mas torna-se a procura do prazer, que seria menos limitado se pudesse ser extraído da própria sociedade. Um quase-círculo que obriga o poeta a procurar alguma forma de identificação com a mercadoria que, em um primeiro momento, rejeita.

“Tinha de saborear essa identificação com o gozo e o receio que lhe advinham do pressentimento de seu próprio destino como classe. Por fim tinha de prover essa identificação com uma sensibilidade que ainda percebesse encantos nas coisas danificadas e corrompidas.” (Id.: 55)

Essa realidade que alimentou a nossa sociedade atual preserva a errância na poesia.
O espaço da caminhada, misto de ócio com ação filosófica, é o próprio espaço para o desenho da vida. Um olhar excessivamente consumista sobre o mundo infiltra-se como o ar, fazendo-nos respirar – e perpetuar – normalidades inventadas, ao mesmo tempo que promove o espirito do não-mover-se. A cristalização impede o erro. Mas na segurança de quem só acerta porque não se move, empobrecemos a linguagem, retiramos a poesia de nossa existência e apequenamos a nossa identidade.

31 de março de 2009

O PAPEL DOS PAIS E DOS FILHOS NO VESTIBULAR 2010


As mudanças no vestibular no estado de São Paulo, divulgadas pela mídia, preocupam estudantes e pais. Essas preocupações são razoáveis, contudo é bom lembrar que tais mudanças são benéficas, pois atendem a necessidades mais complexas do conceito de Educação e que questionam o papel da escola e das avaliações no processo de formação do aluno. Em termos práticos, o que se deseja, mudando o vestibular, é valorizar o perfil do futuro universitário. Passa-se, dessa maneira, da importância dada à quantidade de conteúdos aprendidos para a capacidade de aprender que o candidato desenvolveu no processo de escolarização.

Isso não significa, porém, que o vestibular ‘fica mais fácil’ ou que ‘agora passa qualquer um’. Ao contrário, a mudança de foco permite valorizar ainda mais a escola como espaço de construção de habilidades, conhecimentos e valores que serão úteis no presente e no futuro. Possibilita também que a escola possa dedicar-se à formação do futuro acadêmico e não a formação de um mero ‘acertador de questões’. A diferença entre um perfil e outro é substancial.

São duas as principais mudanças nos vestibulares. A primeira refere-se a certa uniformização formal nos principais vestibulares públicos do estado, que passam a ser constituídos em duas fases: a primeira, com questões de múltipla escolha e a segunda, com questões discursivas e redação. Além disso, os conhecimentos de todas as disciplinas escolares passam a ser cobrados dos candidatos.

A segunda mudança é mais conceitual: as disciplinas perdem força na construção da prova frente às áreas. Em outras palavras, isso significa dizer que “Linguagens, Códigos e Suas tecnologias”, “Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias” e “Ciências Humanas e Suas Tecnologias” são vistas como espaços mais importantes para questionar os alunos do que as disciplinas que as constituem, tais como Língua Portuguesa, Matemática ou Geografia, por exemplo. Desse modo, abre-se o caminho para a interdisciplinaridade na construção do vestibular, prática que não chega a ser de todo nova, pois encontra no vestibular da UnB (Universidade de Brasília) e no ENEM importantes precursores.

A dúvida é saber até que ponto essas mudanças serão praticadas já desde o primeiro momento. Até que ponto já temos ‘elaboradores de questões’ suficientemente preparados para construir questões com tal perspectiva filosófica. Nesse caso, nada mais resta do que torcer, preparar-se e aguardar.

Preparação para o vestibular, contudo, não precisa ser uma atividade restrita aos vestibulandos. Pode converter-se em parte do projeto familiar. Os pais precisam, acima de tudo, demonstrar ao longo do processo de escolarização uma atitude de confiança na capacidade de aprendizado de seus filhos. Essa atitude deve ficar muito mais forte ao passo que se aproxima o momento do vestibular.

Além disso, é importante que assumam regras justas, ainda que duras, que dêem conta de horários para refeições, horários para estudo e horários para descanso e lazer. É muito importante, em nenhum caso, cair em extremismos que apenas complicam o processo. Cuidar para que haja um lugar tranqüilo, bem-iluminado e confortável para a atividade de estudo é outra responsabilidade que os pais podem tomar para si. Além disso, os pais podem e devem tomar para si o projeto de fazer da leitura da famosa lista dos livros do vestibular parte da leitura em família. Lendo os mesmos textos que seus filhos podem tornar-se importantes interlocutores, além de incentivar a atitude adequada do futuro candidato. O mesmo poderíamos dizer da leitura de jornais e revistas: ler e comentar com seus filhos as atualidades presentes na mídia pode ser não apenas um momento de aprendizado, como em uma ocasião para fortalecer a conexão familiar.

9 de março de 2009

A PALAVRA VIVA NA AULA DE PORTUGUÊS


Em nosso cotidiano, utilizar a prática discursiva, decididamente, não é uma ação neutra. Usar a palavra participa no processo de (re-)produzir identidades e relações sociais, constrói e organiza os sistemas de conhecimento e crenças. Ao mesmo tempo, a palavra transforma a sociedade, criando o que ainda não existia e apresentando-se, desse modo, como possibilidade de renovação.

Tomemos como exemplo as relações identitárias entre educadores e educandos: elas estão sujeitas a regras e padrões específicos próprios desse sistema. Por relações identitárias entendemos aquelas relações entre indivíduos que lhes permitem construir as suas identidades. Por exemplo, o professor se constitui professor na relação com os seus alunos e com outros agentes do sistema educativo, tais como o diretor e o coordenador. Um professor sem alunos e sem outros agentes importantes no processo educativo, não é um professor. Desse ponto de vista, o indivíduo necessita do outro para se constituir como identidade psico-social.

Essas relações seguem regras muito específicas que fazem interagir dimensões socias e subjetivas do sujeito. Essas regras podem, em parte, transformar-se a partir do poder do próprio discurso: a fala em sala de aula, na sala dos professores, no debate educacional etc. muda a visão do outro e de si mesmo.

Pensar o discurso com parte da realidade social em que vivemos é um desafio para a escola que tem pensado o ensino de Língua Portuguesa a partir de uma perspectiva dicotomizada entre o certo e o errado, o bem e o mal falar: O que desejamos dela preservar de nossas identidades quando fazemos uso da palavra e por quê? O que gostaríamos de mudar e por quê? Como a linguagem permite isso?

É importante que a relação entre linguagem e estrutura social seja considerada sempre a partir de uma profunda reflexão e diálogo para evitar erros indevidos de ênfase e de simplificação alienadora. Em nenhum momento se fala de excluir a importância das regras e normas para o bem-falar. O que muda é o conceito do que é falar bem, visto agora em uma dinâmica social e dialógica. Todas as palavras que constituem a linguagem são vozes, ao mesmo tempo, sociais e históricas que carregam consigo memórias, usos, tradições etc. que transformam qualquer texto em uma realidade aberta à ‘conversa’ infinita com outros textos.

26 de fevereiro de 2009

A PROCURA DE UM EU BRASILEIRO


O encantamento romântico com o Brasil é ainda um lugar comum.Somos o país do alegre carnaval, da natureza exuberante, do povo simpático e carinhoso, do samba, o país do futebol. As belezas naturais é a persistente imagem que procuram em nós, brasileiros, e é a necessária imagem que vendemos. Somos o país "gigante pela própria natureza", como muito bem nos diz o hino nacional. Nossas matas,nossas praias, o Pantanal, a Floresta Amazônica, a natureza que deslumbra,que encanta e que evoca discussões ecológicas em que se revela toda a preocupação com o futuro do mundo... e que pena tanta coisa bonita e tanta pobreza, com tanta poluição, isso não vai durar muito e ainda vão se arrepender de causarem tanto mal destruindo as florestas. E talvez não dure. Embora, na maior parte das vezes esse plural que causa tanta desgraça inclua o próprio que o enuncia.
O imaginário facilitado pela ausência de reflexão lança-se em uma teia de ideias muitas vezes contraditórias. Somos o país que não sabe se governar. Assim, à imagem da favelas, soma-se a idéia de que no Brasil andamos de cipó, as nossas mulheres andam nuas e encontramos muita dificuldade em jogar futebol, pois as muitas árvores atrapalham as partidas.Sobram os menores abandonados a assaltarem os artistas da Rede Globo deTelevisão e os outros muito ricos que vivem em mansões gigantescas. Mas estes e aqueles não vivem nas matas e sim no Rio de Janeiro, um oásis repleto da tal poluição de que se falava há pouco, uma estranha cidade onde se refugiam todos os criminosos hollywoodianos. Nosso povo é simpático e carinhoso,mais do que isso servil. Nossas mulheres têm uma sensualidade à flor da pele e umas vergonhas tão limpinhas e bonitas que não dá vergonha nenhuma de mostrar, como já nos dizia Caminha. E como se expõem, e como gosta-se de vê-las. Afinal, o Brasil é terra de boas prostitutas, que fazem a qualquer homem gemer sem sentir dor.
Nossos homens são robustos, apreciam muito o trabalho físico, bons procriadores, pardos, preguiçosos. Esse exagero de pp é corrigido quando a mente superior do estrangeiro para aqui vem nos orientar. O brasileiro não sabe se governar.
Esse povo é muito alegre e sempre está disposto à festejar em sua limpinha pobreza.Gostam muito de música e de folguedos e se trabalhassem mais ao invés de andarem por aí a dançar, com certeza não teriam tanta miséria, como temos. Ah...mas nós, brasileiros da Carmem Miranda (e olhe, veja bem, ela nem era brasileira, era portuguesa e chamava-se Carmem, que tampouco é um nome muito comum aqui no Brasil... Ah... esses brasileiros...), nós brasileiros somos tão engraçados... Quando não estamos caçando, estamos sambando, desfilando no carnaval, ou vendendo as nossas santas mãezinhas nas ruas como prostitutas ou estamos fazendo filhos para se tornarem bons menores abandonados, ou estamos cantando e dançando e jogando bola... Nós? Brasileiros?
"O Guarani", de José de Alencar, revela a criação de um complexo mito, que abraçamos de coração com a independência sem nos darmos muito bem conta disso. Ao final do romance, Cecília e Peri unem as suas vidas,deixando para trás o seu passado, levado de enxurrada por um dilúvio. A portuguesa e o índio perdem as suas anteriores identidades e, pela união abençoada por Deus, iniciam o que resultará em um autêntico brasileiro, tomado metonimicamente como o próprio Brasil.E isso fizemos bem... Negamos o nosso passado, como se tivessemos nascido por geração espontânea... É verdade que boas razões explicam isso.
A colonização que originou o Brasil foi dura, cruel, assassina. E provavelmente não seria culpa exclusiva dos portugueses... Não acredito que se ocorresse o inverso,o Brasil teria colonizado de outra forma a Portugal. Ficou-nos uma enorme herança de pobres, de analfabetismo, de tradições caudilhistas e monopolizadoras... Herança que negamos, mas que nunca desapareceu. Herança que tampouco soubemos muito bem o que fazer com ela. Ficou-nos uma maneira de ver o mundo, de construir as casas, de pensar o futuro, de contar histórias... Uma maneira que também negamos, mas que tampouco desapareceu...
Seria a tristeza do fado muito diferente da tristezade um samba? Seria o nosso deslumbramento diante dos EUA, muito diferente do deslumbramento português diante da França e da Inglaterra? Seria a nossa irresponsabilidade ecológica muito diferente daquela que fez arruinar as florestas originais portuguesas de carvalhos e abetos transformando-as em pinhais? É pensar o Brasil como devaneio romântico que nunca se realiza a melhor maneira de encontrarmos a nossa identidade como brasileiros?
Profunda e até melindrosa questão da que têm se ocupado não poucos pensadores. É claro que o estereótipo acima não traduz toda a realidade do pensamento europeu sobre o Brasil, mas tampouco emerge por acaso. Fornece material para pensar o Brasil... para que nos repensemos. Não me proponho a estender mais sobre o assunto. O encaminhamento deste texto nos levaria a muitos, brasileiros ou não, que pensaram o Brasil para além da imagem romântica ou da fonte materna inesgotável fêmea parideira... Se a imagem é perceptível de interpretação.
Estarei sendo tão romântico como os Românticos? É possível... precisamos de Romantismo... Mas precisamos pensar o Brasil...Rever e refazer nossa relação com Portugal, que acredito, também precise rever e refazer a sua, sobre o risco de desatlantizando-se, mascarar-se de uma nova identidade européia que nunca teve. Precisamos constantemente reinventar o Brasil... Pensar em identidade não por opor-se ao passado ou àqueles que conosco dividem a mesma língua, mas na tentativa de construir umcontinuum que interligue ao invés de afastar, e no que temos em comum, nosconstruímos e percebemos nossas diferenças.

25 de fevereiro de 2009

EDUCAÇÃO PARA ENSINAR ou EDUCAÇÃO PARA APRENDER


Um currículo e uma metodologia centradas no ensino não são a mesma coisa que um currículo e uma metodologia centradas no aprendizado. Qual a diferença?


Quando centramos a nossa aula no ensinar, o importante é que o professor ‘dê uma boa aula’. O verbo ‘dar’ orienta o foco do processo: o professor detém o conhecimento e ele o concede de um modo interessante e atrativo a seus alunos. Na linguagem de muitos jovens educandos, ele ‘passa a matéria de um jeito legal’. Fazendo isso ele aparece como estrela no processo, independentemente do real aprendizado ocorrido. Ao contrário, nesse paradigma, o fato de os alunos não aprenderem e terem maus resultados é visto como indicativo de que o professor ensina bem, os alunos é que não aprendem. Sendo culpados, os alunos recorrem a explicadores e outros sistemas de apoio e o professor conserva o seu papel social.


O foco solicitado agora é outro: o aprender. Desejamos que nossos alunos aprendam e para isso pensamos em estratégias de aula que possibilitem isso, não preocupados que o estrelato do espaço da aula seja ocupado pela figura do educador. Na verdade, por assim dizer, desejamos dividir o palco. Nossa aula não se limitará a expor conteúdos, mas a construir conceitos e desenvolver habilidades.


Isso, naturalmente, não assegura que todos os alunos aprendam tudo o que nos propomos a ensinar, mas garante que o protagonismo das aulas seja um espaço dividido entre a figura essencial do professor que professa a sua crença no aprendizado pela prática educativa e a figura do aluno, que se assume agente co-responsável do processo de aprendizado.


Na prática cotidiana da sala de aula, entre os burburinhos dos alunos, as pressões do cotidiano e o constante desejo humano de realização pessoal, é importante desenvolver estratégias que assegurem a efetiva realização da aula como espaço para o processo de aprendizagem.

16 de fevereiro de 2009

ORAÇÃO DO TEMPO



Senhor, paro agora para pensar no tempo.
É tão rara a vida; preciso de tempo!
Não tempo-dinheiro; não tempo-coisa; não tempo-mesquinhez!
Senhor, dá-me tempo-tempo!
Senhor, permite-me ver o tempo, sentir o tempo,
o pulsar do tempo!
Ensina-me, então, como construir o pulsar da vida.
Da vida-tempo! Tempo, nosso, Pai!
Que meu coração acompanhe o pulsar do tempo.
Que meu tempo pulse acompanhando o pulsar
do meu coração. Vigia meu coração.
Irriga de amor cada momento de minha existência.
Inunda meu coração da tua sabedoria.
Que eu escolha tua sabedoria em todo momento.
Que eu espalhe tua sabedoria no pulsar de quem sou.
Que meus mais profundos sentimentos, cuidados por ti,
possam ensinar meu tempo a pulsar.
Envia teu Espírito para que possa eu aceitar meu passado,
guardando a imagem de quem eu sou,
de quem eu sou a teus olhos, Pai amado.
Envia teu Espírito para que possa eu projetar meu futuro
que guarde a imagem de quem eu sou,
de quem eu sou a teus olhos, Pai amado.
Dá-me a felicidade embrulhada no papel da ternura.
Para que minha vida seja feliz!
Para que eu seja feliz, verdadeiramente feliz,
e para que eu faça feliz quem de mim perto estiver
até que eu seja plenamente feliz a teu lado...
Em nome do teu Filho Jesus, na unidade do Espírito Santo.




Sobre o gênero
A oração é um gênero textual complexo. Pode ser visto tanto quanto um texto religioso quanto como um texto literário. Em termos simples, contudo, orar é conversar com Deus. Pessoas religiosas têm necessidade de conversar com Aquele a quem adoram.
As orações podem ser espontâneas, com o indivíduo usando de termos pessoais ou seguir certos padrões. Esses padrões podem ser previamente estabelecidos por uma comunidade e transmitidos de geração em geração (como o Pai-nosso) ou feitas por alguém especificamente (como a oração que aparece neste livro).
Por seu ritmo ao serem recitadas e por seu conteúdo de procura pela elevação humana, as orações, em especial as que seguem certos padrões, se aproximam da poesia.

10 de fevereiro de 2009

BEM-VINDOS ÀS AULAS, PROFESSORES NOTA ZERO!



A rede estadual de educação paulista utiliza o serviço de cem mil professores temporários. Em parte, para não arcar com o ônus extra que representa para o orçamento um professor efetivo. Não me parece uma desculpa muito nobre, mas criou uma possibilidade ímpar: a de avaliar esses temporários que, teoricamente, não têm estabilidade no emprego e, desse modo, selecionar, dentro dos 214 mil professores que se submeteram à prova da Secretaria Estadual da Educação, os melhores.

Os resultados dessa avaliação foram lastimáveis. Cerca de três mil tiraram zero, ou seja, não acertaram uma única questão das 25 sobre a matéria que lecionam. Em outras palavras, poderíamos dizer que nada sabem daquilo que se propõem a ensinar. Somente 111, lembremos: entre 214.000, tiraram dez.

O trágico é que os cerca de 1500 que se dizem professores e que tiraram nota zero poderão voltar às aulas, uma vez que o exame foi suspenso. Isso porque o sindicato dos professores (APEOSP) entrou com uma liminar alegando que esses que se dizem professores têm prestado serviço por anos e que por isso não devem ser descartados. Assim, embora identificados como péssimos funcionários e tirando o emprego de candidatos que tiveram resultados muito melhores, elas não são cortados do quadro de professores da rede por tempo de serviço.

Provas periódicas para os professores são uma realidade na maioria dos países que levam a educação a sério. O que se espera é que aqueles que têm maus resultados sejam afastados da sala de aula. Necessitam capacitar-se para a profissão que desejam. Que confiança teria você em um advogado que tirou "zero" no exame da OAB? E se ele tiver seu diploma validado com o argumento de que já advoga há muito tempo, mesmo sem conhecer as leis?

Ao invés do sindicato pensar na valorização do professor, optou, mais uma vez neste país, pelo 'cabide de emprego'. Pode até ser um professor nota zero, mas está tão acomodado no seu 'empreguinho' que nem vale a pena mexer nele. Esse é o sindicato que cuida de meus interesses! Enquanto isso, a população merece, pelo menos, que se disponibilize a lista dos resultados desses professores. Ao menos, para saber, já que pouco mais nos resta a fazer!

Mas, se a culpa fosse só dos professores ou do sindicato, isto seria um paraíso! O que poderíamos dizer do Poder Público que torna a minha profissão (Sim, eu sou professor!) algo risível com salários muito abaixo do que deve receber uma boa formação (ok, ok... uma formação já está bom, sem qualquer adjetivo!)? A resposta das Universidades não se fez demorar: uma formação abaixo do medíocre. E tão ruim é a formação da maioria dos futuros professores que, por vezes, como no caso desses 1500, chego a pensar que ganham muito mais do que deveriam!

Dia 16, alunos entrarão em sala de aula. Muitos deles contarão com os serviços de profissionais sérios e esforçados que, como eu, lutamos pela valorização salarial e moral de nossa profissão. Acho que nós merecemos ser bem recebidos em nossa volta às aulas. Mas também nossos alunos terão por ali muitos que se dizem professores e que pouco ou nada conhecem de sua profissão. E, todos nós, desejamos a esses que se dizem professores uma boa volta às aulas! Enquanto isso, a grande maioria dos talentos da educação brasileira estão longe, em outras profissões, esperando.... esperando...